Era uma garota reservada; não buscava conversas, tampouco se sentia à vontade entre estranhos. Amava, antes de tudo, a própria solitude. As pessoas ao seu redor jamais a compreenderam por completo. Verônica dedicara-se aos estudos durante toda a vida e, ao contrário das irmãs, que tiveram namoradinhos cedo e acabaram se tornando mães solteiras ainda muito jovens, jamais se deixou levar por romances apressados.
Certo dia, enquanto caminhava distraidamente por uma livraria silenciosa, uma moça lhe chamou intensamente a atenção. Era jovem, de cabelos ondulados em um castanho claro suave, olhos cor de mel e um vestido florido que lhe conferia um ar leve e jovial. Ao perceber que estava sendo observada, a desconhecida esboçou um sorriso discreto. Verônica, tomada por um súbito constrangimento, desviou o olhar rapidamente.
No entanto, quando menos esperava, a moça aproximou-se com naturalidade e quebrou o silêncio entre elas:
— Oi… você sempre lê literatura clássica? — disse, apontando para os livros em suas mãos. — Não pude deixar de perceber que está à procura de um livro de aventura.
Verônica sentiu o coração acelerar. Surpresa, ergueu o olhar com cautela e respondeu em tom baixo, quase tímido:
— Gosto de histórias que me levem para longe… lugares onde a realidade não me alcança tão facilmente.
A moça sorriu novamente, agora com mais intensidade, como se tivesse encontrado algo familiar naquela resposta.
— Então temos algo em comum — afirmou. — Às vezes, fugir pelas páginas é a forma mais honesta de se encontrar.
E, entre estantes repletas de palavras e silêncios compartilhados, algo começou a nascer, delicado, inesperado e profundamente transformador.
Verônica sentiu-se profundamente tocada pela maneira como a moça falava. Havia algo em sua voz, uma suavidade firme, quase íntima, que lhe atravessou os sentidos sem pedir permissão. Em seguida, a jovem sorriu e apresentou-se com naturalidade:
— Meu nome é Jéssica. Trabalho aqui perto… sou biomédica.
Verônica permaneceu em silêncio por alguns segundos, tentando compreender o que, de fato, estava acontecendo. Os pensamentos se atropelavam em sua mente; tudo parecia confuso, inesperado, fora de qualquer roteiro que ela conhecesse. Nunca fora boa em lidar com surpresas, muito menos com pessoas que surgiam assim, despertando emoções que ela jamais aprendera a nomear.
Antes que pudesse organizar uma resposta coerente, Jéssica, com um gesto espontâneo e quase despretensioso, fez-lhe um convite:
— Que tal um café? Aqui mesmo na livraria.
O convite pairou no ar como uma provocação suave. Verônica hesitou. Parte dela queria recuar, voltar ao conforto do silêncio e dos livros; outra parte, recém-desperta, sentia uma curiosidade inquieta — uma vontade estranha e nova de permanecer.
Sem saber exatamente por quê, assentiu com um leve movimento de cabeça.
E, naquele instante singelo, entre o aroma do café recém-passado e páginas ainda não lidas, Verônica pressentiu que algo em sua vida começava, silenciosamente, a mudar.
O tempo foi passando, e Jéssica e Verônica, aos poucos, foram se conhecendo. Entre cafés despretensiosos, conversas que começavam tímidas e silêncios que já não causavam desconforto, Verônica passou a compreender não apenas aquela situação inesperada, mas também aspectos de si mesma que sempre estiveram adormecidos.
Cada encontro revelava algo novo, em Jéssica, uma presença acolhedora; em si, uma sensibilidade que jamais tivera coragem de explorar. Pela primeira vez, Verônica percebeu que viver não precisava ser solitário para ser verdadeiro.
Ela se apaixonou por Jéssica de forma silenciosa e profunda. A certeza veio no instante do primeiro beijo: um toque suave, quase hesitante, mas carregado de significado. Não houve pressa, nem excesso — apenas a clareza absoluta de que aquele gesto simples dizia tudo o que as palavras nunca conseguiriam expressar.
Naquele beijo, Verônica entendeu. Não era apenas amor por Jéssica; era, finalmente, amor pela própria vida que começava a se revelar diante dela. Assumir sua identidade e aceitar que ela não era uma pessoa comum, um padrão da sociedade! No fundo Verônica sempre soube que era diferente, mas nunca quis assumir para si mesma!
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